O Significado das Saudações do Presidente do Egito El-Sisi

Photo/Cover: Cairo/Reuters

Fonte/Source: The Significance of President El-Sisi’s Greetings | Raymond Ibrahim

Gatestone Institute

Em 6 de janeiro, Abdel Fatah al-Sisi se tornou o primeiro presidente Egípcio até então a visitar a Catedral Ortodoxa Copta de São Marcos durante Missa de Véspera de Natal Copta e a oferecer suas saudações à minoria Cristã da nação.

sisi 5Entretanto, a Lei Islâmica proíbe saudações a não-muçulmanos em celebrações religiosas, razão pelas quais presidentes antecessores (Nasser, Sadat, Mubarak, e, claro, Morsi) nunca compareceram à missa de Natal.
Consequentemente, as saudações que Sisi recebeu de centenas de cristãos presentes foram jubilantes. Seu discurso foi muitas vezes interrompido por aplausos e gritos de “Nós te amamos!” E “de mãos dadas” – frases que ele retribuiu. Ele disse, entre outras coisas:

O Egito trouxe uma mensagem humanista e civilizatória para o mundo há milênios e nós estamos aqui hoje para confirmar que somos capazes de fazê-lo novamente. Sim, uma mensagem humanista e civilizatória deve mais uma vez emanar do Egito. É por isso que não devemos nos chamar por algo diferente de “Egípcios”. Isso é o que deve ser – Egípcios, apenas Egípcios, Egípcios, de fato! Eu só quero dizer-lhe que se Allah (Deus) quiser, se Allah quiser, vamos construir a nossa nação juntos, acomodar um ao outro, criar espaço para o outro; e nós devemos gostar um do outro, amar uns aos outros, amar uns aos outros a sério, para que as pessoas possam ver… Então me deixa dizer mais uma vez, Feliz Ano Novo, Feliz Ano Novo para todos vocês, Feliz Ano Novo a todos os Egípcios!

Enquanto este discurso pode ser visto como lugar comum para o observador Ocidental mediano, no contexto do Egito, é muito controverso. Considere o que outros Egípcios muçulmanos disseram nos dias que antecederam o Natal Copta.

Num megafone, um imã na mesquita Abu Hamda em Kafr al-Dawwar perto de Alexandria condenou a própria noção de saudar os Cristãos, não apenas nos seus próprios feriados, mas também em todos os feriados. Ele disse: os Cristãos são “heréticos”, “politeístas”, “impuros” e, portanto a eles nunca deveria ser desejado um Feliz Ano Novo, considerando que a “bondade” só pode existir numa perspectiva monoteísta, ao passo que os Cristãos sustentam que Deus teve um filho, tornando-os infiéis e politeístas.

Ele ainda citou o Alcorão 09:28, que diz: “Ó vós que têm acreditado, na verdade os idólatras são impuros.” A maioria dos muçulmanos que o escuta está provavelmente familiarizada com o verso subsequente, 09:29, que exorta os fiéis à guerra contra o Povo do Livro – Cristãos e Judeus – até que sejam totalmente subjugados.

Serem repugnados como Cristãos “impuros” não é um tema incomum entre os islamitas Egípcios. Neste vídeo, por exemplo, do Dr. Abdullah Badr – um estudioso Muçulmano Egípcio, graduado em Al Azhar e professor de Exegese Islâmica, que passou 10 anos na prisão por Mubarak e foi libertado por Morsi – explica o quão “enojado” está ao ponto de, se um Copta tocar a sua taça, ele não bebe dela:

Eu fico com nojo. Entende isso?  Enojado, eu fico com nojo, eu não suporto o cheiro deles ou… Eu não gosto deles, é a minha escolha. Eles me dão nojo; seu cheiro, seu olhar, tudo. Eu sinto nojo, nojo.

É claro que muitos vão descartar esses imãs e clérigos como um movimento “radical extremista” (fringe extremist). O que dizer, então, do Sheikh Yusuf al-Qaradawi – um dos clérigos islâmicos mais influentes do mundo, autor de mais de 100 livros sobre a doutrina muçulmana, chefe da União Internacional de Acadêmicos Muçulmanos, cujos membros tiveram reuniões na Casa Branca? Este homem também condena o ato de parabenizar Cristãos durante o Natal ( apóia a pena de morte por apostasia e sustenta que ações inibitórias do profeta devem ser obedecidas em todos os momentos – mesmo se elas exigirem alguém para matar).

Dias antes do Natal, o idoso Qaradawi apareceu em um vídeo condenando qualquer muçulmano que de alguma forma participe do Natal, que ele chamou de “pecado, vergonhoso e indecente”, bem como um produto da “estupidez” e da “ignorância dos mandamentos do Islã”:

“Você viu todas as celebrações que estão ocorrendo nas ruas de Doha [Qatar] e centros comerciais pelo nascimento de Cristo, ou “Natal”, como eles chamam?… Como podemos celebrar o Natal, quando nem celebramos o aniversário do Profeta? É um pecado, vergonhoso e indecente. Isto também mostra a estupidez com que lidamos com os outros e a ignorância dos mandamentos do Islã.”

Enquanto isso, o professor da Universidade de Georgetown John Esposito (um scholar Islâmico) tem elogiado Qaradawi por engajar-se em uma “interpretação reformista do Islã, sua relação com a democracia, o pluralismo e os direitos humanos.”

Se a condenação de Mulçumanos a participação em festas de Natal não se limita aos extremistas e islamitas, também não se limita ao Egito. Isto acontece a cada ano em todo o mundo islâmico, incluindo os países não-Árabes.

janissariesAssim, na Turquia, como relata Burak Bekdil, “A última semana do ano contou com cenas habituais na Turquia: Um homem vestido como um janissary [veste de Guerreiro Otomano] persegue outro vestido como Papai Noel, a fim de dar-lhe uma boa surra… Diretores de educação da Província alertam aos alunos contra as celebrações de Natal e Ano Novo…”

Na Indonésia, a Frente de Defensores Islâmicos, de acordo com Temo “pediu ao presidente Joko Widodo para não desejar aos Cristãos do país um Feliz Natal”, como “o presidente seria considerado um apóstata se optar por fazê-lo”, significando que ele merece a pena de morte.

A razão para toda esta resistência às saudações aos “infiéis” é clara: Baseado em versos Corânicos e Hadiths [os ditos e atos do Profeta Maomé], há consenso entre os ulemas [acadêmicos religiosos] do Islã de que os muçulmanos não podem cumprimentar ou saudar os não-muçulmanos em seus dias santos e celebrações; porque assim fazendo, indica que as crenças não-muçulmanas – que contradizem o Islã – são válidas (ver The Al Qaeda Reader, páginas 89-91, para citações textuais).

Apesar do presidente da Indonésia ter respondido às ameaças islamitas, sabemos que o presidente Egípcio El-Sisi fez o inédito na véspera de Natal Copta; felicitou a minoria Cristã do Egito em sua catedral – um passo pequeno, mas corajoso na longuíssima estrada que El-Sisi chama de “revolução religiosa” do Egito.

Tradução: Sebastian Cazeiro

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