A Verdade Sobre as Cruzadas

Fonte/Source: The Truth about the Crusades | Raymond Ibrahim

12 de fevereiro de 2015

Foram as Cruzadas um reflexo dos “atos terríveis [feitos] em nome de Cristo”, como o presidente dos EUA Obama advertiu recentemente, ou era um reflexo de algo mais, ou seja, séculos de jihad Islâmica? No ensaio seguinte, um dos principais historiadores das Cruzadas responde definitivamente a questão.

Thomas Madden – Ex-Presidente do Departamento de História da Universidade de Saint Louis e Diretor do Centro de Estudos Medievais e Renascença – escreveu este artigo em 2002, quando o presidente Bush usou a palavra “Cruzada” no sentido positivo, criando controvérsia. Hoje, sua relevância é porque Obama invocou as Cruzadas no sentido negativo, também criando controvérsia.

Madden apresenta o mais recente trabalho acadêmico sobre as Cruzadas – trabalho acadêmico que contradiz completamente a imagem popular destas guerras que permeiam grande parte de Hollywood, dos escritos de amadores, como Karen Armstrong e, como visto a visão do mundo de Barack Obama.

(Devido à sua extensão (cerca de 4000 palavras), apenas o que é relevante aparece na versão significativamente reduzida abaixo; frases e parágrafos especialmente pertinentes são destacados em negrito.)

Cruzada embate turcos e cristaosCruzadas: Turcos x Cristãos

A História Real das Cruzadas

Crisis Magazine

Por Thomas Madden

[…]

Equívocos sobre as Cruzadas são muito comuns. As Cruzadas são geralmente retratadas como uma série de guerras santas contra o Islã lideradas por papas tiranos e travadas por fanáticos religiosos. Supõe-se que foi o epítome da justiça com as próprias mãos e da intolerância, uma mancha negra na história da Igreja Católica especialmente e para a civilização Ocidental em geral. Uma classe de proto-imperialistas, os Cruzados introduziram a agressão Ocidental à paz no Oriente Médio e em seguida deformaram a Iluminada cultura Muçulmana, deixando-a em ruínas. Para variações sobre este tema, não é preciso olhar para longe. Veja, por exemplo, o famoso épico em três volumes de Steven Runciman, História das Cruzadas, ou o documentário da BBC/A&E, As Cruzadas, apresentado por Terry Jones. Ambos refletem um contexto histórico terrível embora maravilhosamente divertido.

Então, qual é a verdade sobre as Cruzadas? Os estudiosos ainda estão trabalhando para elucidar alguns pontos. Mas muito já se pode dizer com certeza. Para começar, as Cruzadas no Oriente, foram em todos os sentidos guerras defensivas. Elas significaram uma resposta direta à agressão Muçulmana – na tentativa de repelir ou de se defender contra o avanço Muçulmano sobre terras Cristãs.

Os Cristãos do século XI não eram fanáticos paranoicos . Muçulmanos realmente estavam caçando eles. Enquanto os Muçulmanos podem ser pacíficos, o Islã nasceu em guerra e cresceu da mesma forma. Desde a época de Muhammad (Maomé), os meios de expansão Muçulmana foram sempre via espada. O pensamento Muçulmano divide o mundo em duas esferas, a Casa do Islã e a Casa de Guerra. O Cristianismo – e isto se aplica a qualquer religião não-muçulmana – não tem domicílio. Cristãos e Judeus podem ser tolerados dentro de um estado Muçulmano sob o domínio Muçulmano. Mas, no Islã tradicional, estados Cristãos e Judeus devem ser destruídos e suas terras conquistadas. Quando Muhammed travou guerra contra Meca, no século VII, o Cristianismo era a religião dominante com poder e riqueza. Como a fé do Império Romano, que se expandiu por todo o Mediterrâneo, incluindo o Oriente Médio, onde ele nasceu. O mundo Cristão, portanto, era o alvo preferencial para os primeiros califas, e permaneceu assim para os líderes Muçulmanos pelos os próximos mil anos.

Com uma enorme energia, os guerreiros do Islã se lançaram contra os Cristãos logo após a morte de Muhammad. Eles foram extremamente bem sucedidos. Palestina, Síria e Egito – outrora regiões de maior força Cristã no mundo – rapidamente sucumbiram. Até o século VIII, os exércitos muçulmanos haviam conquistado todo o Norte Cristão da África e a Espanha. No século XI, os Turcos Seljúcidas conquistaram a Ásia Menor (atual Turquia), que tinha sido Cristã desde o tempo de São Paulo. O antigo Império Romano, conhecido pelos historiadores modernos como o Império Bizantino, foi reduzido a pouco mais do que a Grécia. Desesperado, o imperador em Constantinopla enviou uma mensagem para os Cristãos da Europa Ocidental, pedindo-lhes para ajudar seus irmãos e irmãs no Oriente.

Isso é o que deu à luz as Cruzadas. Eles não eram frutos da imaginação de um papa ambicioso ou de cavaleiros vorazes, mas uma resposta a mais de quatro séculos de conquistas em que os Muçulmanos já haviam capturado dois terços do velho mundo Cristão. Em algum momento, o Cristianismo como fé e cultura tinha de se defender ou seria subordinado ao Islã. As Cruzadas representaram essa defesa.

Papa Urbano II convocou os cavaleiros da Cristandade para rechaçar as conquistas do Islã no Concílio de Clermont, em 1095. A resposta foi tremenda. Muitos milhares de guerreiros fizeram o voto da cruz e se prepararam para a guerra. Por que eles fizeram isso? A resposta para essa questão tem sido muito mal interpretada. Na esteira do Iluminismo, era geralmente dito que os Cruzados não passavam de meros sem-terras, vagabundos e preguiçosos que aproveitavam a oportunidade para roubar e saquear as terras distantes. Os sentimentos de piedade, abnegação e amor a Deus expressos pelos Cruzados eram obviamente para não serem levados a sério. Esses eram apenas uma fachada para projetos sombrios.

Durante as duas últimas décadas, estudos gráficos assistidos por computadores demoliram esse invenção. Os estudiosos descobriram que os cavaleiros cruzados eram homens geralmente ricos, com abundância de terras próprias na Europa. No entanto, eles voluntariamente desistiram de tudo para realizar a missão sagrada. As Cruzadas custavam muito. Mesmo os senhores ricos poderiam facilmente empobrecer a si e suas famílias aderindo a uma Cruzada. Eles não a fizeram esperando riqueza material (já que muitos eram ricos), mas porque tinham esperança de juntar tesouros em lugares aonde à ferrugem e a traça não pudesse corromper. Eles tinham plena consciência de seus pecados e ansiavam realizar as dificuldades das Cruzadas como um ato penitencial à caridade e ao amor. A Europa está repleta de milhares de gráficos (cartas) medievais atestando esses sentimentos, gráficos pelos quais esses homens ainda hoje nos falam se os ouvirmos. É claro que eles não se opunham a capturar espólios se pudessem obter. Mas a verdade é que as Cruzadas foram notoriamente ruins para o saque. Algumas pessoas ficaram ricas, mas a grande maioria voltou com nada.

Urban II deu aos Cruzados dois objetivos, sendo que ambos permaneceriam centrais para as Cruzadas Orientais por séculos. A primeira foi para resgatar os Cristãos do Oriente. Como seu sucessor, o Papa Inocêncio III, escreveu mais tarde:

Como é que um homem ama segundo o preceito divino, seu próximo como a si mesmo, quando sabendo que seus irmãos Cristãos, na fé e em nome, são detidos por Muçulmanos pérfidos em confinamento rigoroso e sobrecarregados pelo jugo da servidão mais pesada, não se devota a tarefa de libertá-los? ... É por acaso que você não sabe dos muitos milhares de Cristãos que estão obrigados a escravidão e presos pelos Muçulmanos, torturados com inúmeros tormentos?

 As Cruzadas – como expõe acertadamente o Professor Jonathan Riley-Smith – foi entendida como um “um ato de amor”, neste caso, o amor ao próximo. As Cruzadas foram vistas como uma missão de misericórdia para endireitar um terrível mal. Como o Papa Inocêncio III escreveu para os Cavaleiros Templários, “Você realiza em atos as palavras do Evangelho “Amor maior do que este nenhum homem têm, que dá a sua vida pelos seus amigos”.

O segundo objetivo foi à libertação de Jerusalém e outros lugares santificados pela vida de Cristo. […]

Frequentemente assume-se que o objetivo central das Cruzadas foi forçar a conversão do mundo Muçulmano. Nada poderia estar mais longe da verdade. Do ponto de vista dos Cristãos medievais, os Muçulmanos eram os inimigos de Cristo e da Sua Igreja. Era tarefa dos Cruzados derrotá-los e defende-los. Isso era tudo. Os Muçulmanos que viviam em territórios conquistados pelos Cruzados eram geralmente autorizados a manterem a sua propriedade e os seus meios de subsistência, e sempre a sua religião. Na verdade, ao longo da história do Reino Cruzado de Jerusalém, a população Muçulmana era maior que a Católica. Mas foi somente a partir do século 13 que os Franciscanos iniciaram esforços para conversão de Muçulmanos. Esforços que em sua maioria fracassaram e, foram finalmente abandonados. Em qualquer caso, esses esforços foram pela persuasão pacífica, e não pela violência.

As Cruzadas foram guerras, por isso seria um erro caracterizá-las como nada além de piedade e boas intenções. Como toda a guerra, a violência foi brutal (embora não tão brutal quanto às guerras modernas). Houve percalços, erros e crimes. Estes são geralmente bem lembrados hoje. Durante os primeiros dias da Primeira Cruzada em 1095, uma escória de bandidos Cruzados, liderados pelo Conde Emicho de Leiningen caminhou pelo baixo Reno, roubando e matando todos os Judeus que puderam encontrar. Sem sucesso, os bispos locais tentaram parar o massacre. Aos olhos desses guerreiros, Judeus e Muçulmanos, eram os inimigos de Cristo. Saquearam e mataram, mas depois, não houve continuidade. Na verdade, eles acreditavam que era um ato justo, uma vez que o dinheiro dos Judeus puderia ser usado para financiar a Cruzada para Jerusalém. Mas eles estavam errados, e a Igreja condenou veementemente os ataques antisemitas.

Cinquenta anos depois, quando a Segunda Cruzada estava se preparando, São Bernardo frequentemente pregava que os Judeus não deveriam ser perseguidos:

Pergunte a qualquer um que conheça as Sagradas Escrituras o que ele encontra predito sobre os Judeus no Salmo. "Não é pela destruição deles que Rezo", ele diz. Os Judeus são para nós as palavras vivas das Escrituras, pois eles nos fazem lembrar sempre o que nosso Senhor sofreu...  Protegidos pelos príncipes Cristãos eles suportam um duro cativeiro, porém "apenas aguardam o momento de sua libertação."

[…]

Quando pensamos sobre a Idade Média, é fácil ver a Europa à luz do que se tornou em vez do que era. O colosso do mundo medieval era o Islã, e não a Cristandade. As Cruzadas são interessantes, em grande parte porque elas eram uma tentativa de contrariar essa tendência. Mas, em cinco séculos de Cruzadas, foi apenas a Primeira Cruzada que reverteu significativamente o progresso militar do Islã. A partir daí foi por água abaixo.

[…]

De uma distância segura, de muitos séculos, é muito fácil fazer uma careta de desgostoso às Cruzadas. Religião, afinal de contas, não tem nada que justifique tanta guerra. Mas devemos ter em mente que os nossos antepassados medievais poderiam estar igualmente revoltados com nossas guerras infinitamente mais destrutivas lutadas em nome de ideologias políticas. E, no entanto, tanto o medieval e o soldado moderno lutam, em última analise, pelo seu próprio mundo e tudo que o compõe. Ambos estão dispostos a sofrer enormes sacrifícios, desde que estejam a serviço de algo lhes são caros, algo maior que eles mesmos.

Quer admiramos ou não os Cruzados, é fato que o mundo que conhecemos hoje não existiria sem os seus esforços. A antiga fé do Cristianismo, com seu respeito pelas mulheres e antipatia em relação à escravidão, não só sobreviveu, mas floresceu. Sem as Cruzadas, ela poderia muito bem ter seguido o Zoroastrismo, outro dos rivais do Islã, em extinção.

Tradução: Sebastian Cazeiro

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