A ‘Reforma do Islã’ já está aqui – e se chama ‘ISIS’

Fonte/Source:Islam’s ‘Reformation’ Is Already Here—and It’s Called ‘ISIS’ | Raymond Ibrahim

A ‘Reforma do Islã já está aqui – e se chama ‘ISIS’ 

Por Raymond Ibrahim em 07 de maio de 2015

A ideia de que o Islã precisa de uma reforma está novamente no centro das atenções após a recente publicação do novo livro de Ayaan Hirsi Ali, Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now (Por que o Islã Precisa de uma Reforma Imediata). Enquanto Ali argumenta que o Islã pode ser reformado – e precisa desesperadamente tomar as medidas extremas sugeridas por ela – muitos de seus críticos oferecem uma pletora de reivindicações contra, incluindo as de que o Islã não precisa ser reformado.

O único argumento que ainda não foi feito até então, é o que faço abaixo – isto é, de que o Islã já foi “Reformado”. A violência, a intolerância e o extremismo – tipificado pelo Estado Islâmico (ISIS) – é o resultado líquido dessa “Reforma”.

Tal alegação só soa absurda, devido a nossa compreensão da palavra “reforma”. No entanto, apesar de suas conotações positivas, uma “reforma” significa simplesmente “fazer alterações (em alguma coisa, normalmente numa instituição ou prática social, política ou econômica), a fim melhorá-la.”

Sinônimos de “reforma” incluem “fazer melhor”, “aperfeiçoar” e “melhorar” – todas esplêndidas palavras, mas todas são subjetivas e carregadas de conotações Ocidentais.

Noções Muçulmanas sobre como “melhorar” a sociedade podem incluir o expurgo de “infiéis” e “apóstatas”, e a segregação de homens e mulheres Muçulmanos, mantendo esta última em segredo ou em quarentena doméstica. Banir, como exemplo, várias formas de liberdades conquistadas pelo Ocidente – do consumo de álcool a religiosidade e a igualdade de gênero – significam “melhorias” e “aperfeiçoamentos” da sociedade, do ponto de vista estritamente Islâmico.

Em suma, uma reforma Islâmica não vai levar ao que nós pensamos como “melhorias” e “aperfeiçoamento” da sociedade – simplesmente porque “nós” não somos Muçulmanos e não compartilhamos as suas primeiras premissas e pontos de referência.  A “Reforma” somente soa bem para a maioria dos povos Ocidentais, porque naturalmente atribuem conotações Ocidentais a palavra.

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by 19th-century German artist Friedrich Martersteig

Paralelos Históricos: A Reforma Islâmica e Reforma Protestante

Na sua essência, a Reforma Protestante era uma revolta contra a tradição em nome da escritura – neste caso, a Bíblia. Com a chegada da imprensa, um número crescente de Cristãos se tornou mais familiarizado com o conteúdo da Bíblia, com as partes os quais sentiam que contradizia o que a Igreja estava ensinando. Então, eles romperam, protestando que a única autoridade Cristã era “a escritura em si,” sola scriptura.

A atual reforma Islâmica segue a mesma lógica da Reforma Protestante – especificamente por, priorizar a escritura sobre séculos de tradição e debates jurídicos – mas com resultados antitéticos que refletem os ensinamentos contraditórios dos textos fundamentais do Cristianismo e do Islamismo.

Tal como acontece com o Cristianismo, durante a maior parte de sua história, as escrituras do Islã, especificamente os “pilares gêmeos”, ou seja, o Alcorão (palavras literais de Allah) e o Hadith (palavras e ações do profeta de Allah, Muhammad (Maomé)), eram inacessíveis para a grande maioria dos Muçulmanos. Apenas alguns estudiosos, ou ulemás – literalmente, “os que sabem” – foram alfabetizados em Árabe e/ou tinha a posse das escrituras do Islã. O Muçulmano médio sabia apenas o básico do Islã, ou seus “Cinco Pilares.”

Nesse contexto, uma “síntese medieval” floresceu em todo o mundo Islâmico. Guiados por um consenso geral evolutivo (ou ijma’), os Muçulmanos buscaram acomodar a realidade – de acordo com as palavras do historiador medieval Daniel Pipes –

Traduzindo o Islã a partir de um corpo abstrato, e de exigências inviáveis [como estipulado no Alcorão e no Hadith] num sistema viável. Em termos práticos, isso atenuou a Sharia e fez o código de leis operacional. Sharia agora poderia ser suficientemente aplicada sem que Muçulmanos fossem submetidos às suas exigências mais rigorosas… [No entanto,] Enquanto a síntese medieval funcionou ao longo dos séculos, nunca superou sua fraqueza fundamental: Ela é amplamente enraizada nos ou derivada dos textos fundamentais, constitucionais do Islã. Baseada em compromissos e meias medidas, ela sempre permaneceu vulnerável à crítica pelos puristas (grifo adicionado).

Essa vulnerabilidade agora atingiu o ponto de ruptura: milhões de cópias do Alcorão publicadas em Árabe e em outros idiomas estão em circulação hoje em dia comparado há um século; milhões de Muçulmanos estão agora alfabetizados o suficiente para ler e compreender o Alcorão em relação aos seus antepassados medievais. O Hadith, que contém alguns dos ensinamentos mais intolerantes e atos violentos atribuídos ao profeta do Islã – incluindo cada atrocidade cometida pelo Estado Islâmico (ISIS) tais como decapitação, crucificação e queima de “infiéis”; mesmo zombando de seus corpos – estão agora coligidos e acessíveis, em parte graças aos esforços dos estudiosos Ocidentais, os Orientalistas. Mais recentemente, através da internet – onde todas essas escrituras estão agora disponíveis em dezenas de idiomas e a qualquer pessoa com um laptop ou iphone.

Nesse cenário, floresceu o que tem sido chamado em diferentes momentos, lugares e contextos, de “fundamentalismo Islâmico”, “Islã radical”, “Islamismo”, e “Salafismo”. Muitos crentes Muçulmanos de hoje, mais familiarizados que seus ancestrais com os ensinamentos de suas escrituras, com palavras muitas vezes colocando o preto no branco, estão protestando contra as tradições anteriores; estão protestando contra a “síntese medieval”; em favor do literalismo escritural – tal como os seus homólogos Cristãos Protestantes uma vez se opuseram.

Assim, se Martin Luther (d. 1546) rejeitou os acréscimos extra-escriturais da Igreja e “reformou” o Cristianismo, alinhando-o exclusivamente a escritura, Muhammad ibn Abdul Wahhab (d. 1787), um dos primeiros reformadores modernos do Islã, “apelou para o retorno ao puro, e autêntico Islã do profeta; e a rejeição aos acréscimos que haviam corrompido e distorcido o Islã” (Bernard Lewis, The Middle East, p. 333).

As palavras inalteradas de Deus – ou Allah – são tudo o que importa aos “reformistas”, com o Estado Islâmico (ISIS) na liderança.

Nota: Pelo fato de estarem mais familiarizados com as escrituras do Islã, os outros Muçulmanos, é claro, estão apostatando – seja através da conversão para outras religiões, principalmente o Cristianismo ou abandonando a religião por completo, mesmo que apenas em seus corações (medo da penalidade por apostasia). Este é um muito ponto importante a ser revisitado mais tarde. Os Muçulmanos que não se tornam descontentes depois de se tornarem mais familiarizados com os ensinamentos literais das escrituras do Islã, e que em vez disso se tornam mais fiéis e atentos, são o tema deste ensaio.

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Cristianismo e Islamismo: 
Ensinamentos Antitéticos, Resultados Antitéticos

Como o Cristianismo e o Islamismo podem seguir padrões similares de reforma apresentando resultados antitéticos, que repousam no fato das escrituras frequentemente serem contraditórias entre si? Este é o ponto-chave, e um reconhecidamente ininteligível para pós-modernos, sensibilidades seculares, que tendem a agrupar todas as escrituras religiosas juntas em um caldeirão de relativismo sem se preocupar em avaliar o significado de suas respectivas palavras e ensinamentos.

Obviamente uma comparação ponto a ponto das escrituras do Islã e do Cristianismo não é apropriado para um artigo deste tamanho (leia o meu artigo “Será o Judaísmo e o Cristianismo tão violento quanto o Islã?” para uma visão mais abrangente).

Basta observar algumas contradições (que, naturalmente, serão rejeitadas como de praxe pela mentalidade relativista):

  • O Novo Testamento prega a paz, o amor fraternal, a tolerância e o perdão, para todos os seres humanos, crentes e não crentes. Em vez de combaterem e converterem “infiéis”, os Cristãos são chamados a rezar por aqueles que os perseguem e darem a outra face (que não é a mesma coisa que passividade, pois os Cristãos também são chamados a serem corajosos e sem remorso). Por outro lado, o Alcorão e o Hadith conclamam a guerra, ou a jihad, contra todos os não-crentes ou infiéis, até que se convertam, e aceitem a domínio pela força, a discriminação, ou a morte.
  • O Novo Testamento não tem nenhuma punição para o apóstata do Cristianismo. Por outro lado, o próprio profeta do Islã decretou que “Aquele que tenha abandonado a sua religião Islâmica, mate-o em seguida.”
  • Novo Testamento ensina a monogamia, um marido e uma esposa, dignificando assim a mulher. O Alcorão permite a poligamia – até quatro esposas – e a posse de concubinas, ou escravas sexuais. Várias leituras literais tratam todas as mulheres como possessões.
  • O Novo Testamento desencoraja a mentira (e.g., Col. 3: 9). O Alcorão permite isso; o próprio profeta muitas vezes enganou os outros, e permitiu mentir às esposas, para reconciliar as partes beligerantes, e ao “infiel” durante a guerra.

É precisamente pelo fato do literalismo escritural Cristão prestar-se a liberdade religiosa, a tolerância e a dignidade da mulher, que a civilização Ocidental se desenvolveu da forma como fez – apesar da propaganda incansável emanada pelo meio acadêmico, Hollywood, e outras mídias importantes que dizem o contrário.

E é precisamente por estar, o literalismo escritural Islâmico, em desacordo com a liberdade religiosa, a tolerância e a dignidade da mulher, que a civilização Islâmica é do jeito que é, apesar da propaganda incansável emanada pelo meio acadêmico, Hollywood, e outros grandes meios de comunicação que dizem o contrário.

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A Reforma Islâmica Está Aqui – e é o Estado Islâmico (ISIS)

Aqueles do Ocidente que estão à espera de uma “reforma” Islâmica na mesma linha da Reforma Protestante, com a idéia de que ela irá levar a resultados semelhantes, devem abraçar dois fatos: 1) A Reforma do Islã está bem a caminho, e certamente, ao longo das mesmas linhas da Reforma Protestante – com foco na escritura e no desrespeito a tradição – por razões históricas semelhantes (alfabetização, divulgação das escrituras, etc.); 2) Entretanto, pelo fato de, os ensinamentos centrais dos fundadores e as escrituras do Cristianismo e do Islamismo serem marcadamente diferentes um do outro, a reforma do Islã está produzindo algo marcadamente distinto.

Dito de outro modo, aqueles do Ocidente que anseiam por uma “reforma Islâmica” precisam reconhecer o que realmente estão pedindo: a secularização do Islã em nome da modernidade; a banalização e a marginalização da lei Islâmica da sociedade Muçulmana. Isto é precisamente o que Ayaan Hirsi Ali está fazendo. Algumas de suas reformas, conforme descrito no Heretic apela aos Muçulmanos para começar a duvidar de Muhammad (cujas palavras e atos estão no Hadith) e o Alcorão – as duas fundações do Islã.

Isso não seria uma “reforma” – Certamente nada análogo à Reforma Protestante.

O secularismo Ocidental foi negligenciado, e só é exequível porque a escritura Cristã presta-se à divisão entre a Igreja e o Estado, o espiritual e o temporal.

Defender os ensinamentos do Cristianismo literal é possível em um estado laico — ou em qualquer — estado. Cristo chamou os crentes a “dar a César as coisas de César [temporal] e a Deus as coisas de Deus [espiritual]” (Mat. 22:21). Porque o “Reino de Deus não é deste mundo” (João 18:36). De fato, uma boa parte do Novo Testamento lida com a forma de como “o homem não é justificado pelas obras da lei… Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada” (Gl. 2:16).

Por outro lado, o Muçulmano tradicional é dedicado a defender a lei; e a escritura Islâmica apela para uma fusão entre a lei islâmica – Sharia – e o Estado. Allah decreta no Alcorão que “não é apropriado para os crentes – homens ou mulheres – fazerem escolhas em assuntos se Allah e Seu Mensageiro decretaram o contrário. E quem desobedece Allah e Seu Mensageiro, se desvia em um evidente erro. “(33:36). Allah disse ao profeta do Islã, “Nós o colocamos num caminho ordenado [literalmente em Árabe, Sharia] de comando; então o siga e não siga as inclinações daqueles que são ignorantes “(45:18).

A corrente principal de exegese Islâmica sempre interpretou esses versos para dizer que os Muçulmanos devem seguir os mandamentos de Allah como previsto no Alcorão e no exemplo de Muhammad como previsto no Hadith – numa palavra, a Sharia.

E a Sharia é tão preocupada com os detalhes desse mundo, com as ações diárias dos Muçulmanos, que toda ação humana concebível cai sob cinco decisões, ou Ahkam: o proibido (haram), o desencorajado (Makruh), o neutro (mubah), o recomendado (mustahib), e a aplicabilidade (wajib).

Por outro lado, o Islã oferece pouco com relação à espiritualidade (marginalizado, o Sufismo é a exceção).

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Sufismo: Derviches Dançantes da Turquia

Ao contrário do Cristianismo, então, o Islã sem a lei – sem a Sharia – se torna sem sentido. Afinal, a palavra Árabe Islã literalmente significa “submissão”. Submissão a quê? As leis de Allah, como codificadas pela Sharia e derivadas do Alcorão e Hadith – as três coisas que Ayaan Hirsi Ali está pedindo aos Muçulmanos para começarem a duvidar.

A “reforma Islâmica” que alguns do Ocidente estão pedindo é realmente nada menos do que um Islã sem Islã – a secularização e não a reforma; Muçulmanos priorizando as leis seculares, cívicas e humanitárias sobre a lei de Allah; uma “reforma” que veria lentamente a religião de Muhammad ir para a lixeira da história.

Tal cenário é certamente mais plausível do que acreditar que o Islã possa ser fiel às suas escrituras e a história de forma significativa e ainda coexistir pacificamente com, muito menos complemento, no caminho da modernidade como o Cristianismo o faz.

Nota: Uma versão anterior deste artigo foi primeiramente publicada na PJ Media em Junho de 2014.

Tradução: Sebastian Cazeiro

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