MANTENHA A RELIGIÃO FORA DAS ESCOLAS CANADENSES

Fonte/Source: Keep religion out of Canadian schools

MANTENHA A RELIGIÃO FORA DAS ESCOLAS CANADENSES

Por Vikas Thusoo

10 de fevereiro de 2017

 "A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si
pode fazer um inferno do céu, do céu um inferno." 
(John Milton - Paradise Lost)

Nos últimos anos, a acomodação religiosa nas escolas Canadenses tem sido objeto de muita controvérsia. Pais, escolas e moradores têm discutido sobre o papel da religião em nosso sistema de escolas públicas, com cada lado pesando com fortes opiniões pessoais e legais. No início deste ano, a Peel District School Board permitiu que estudantes Muçulmanos fizessem as orações de Sexta-feira na escola, com algumas restrições. Os estudantes Muçulmanos veem essas restrições como violação à sua liberdade fundamental de religião, enquanto outros veem esse gesto de acomodação como uma “genuflexão da comunidade e uma bofetada na cara de todos os outros Canadenses”. Claramente, estas são palavras sérias e fortes e um reflexo da ruptura social que a acomodação de práticas religiosas no sistema escolar público está causando.

Um rápido olhar no cronograma recente de alguns eventos sobre isso revela uma tendência preocupante:

  • Em 2011, vários grupos religiosos protestaram em frente a Toronto District School Board, contra a permissão de deixarem que estudantes Muçulmanos rezassem numa escola de Toronto, com um Imã de uma Mesquita local presidindo. Eles o chamaram de discriminatório, perturbador e chegaram a chamá-lo de “islamização da sociedade”. Curiosamente, foram os grupos religiosos que pediram uma completa eliminação da religião do sistema escolar público.
  • Em 2015, principalmente Muçulmanos conservadores do sul da Ásia e do Oriente Médio, encenaram uma greve na Escola Secundária Thorncliffe Park contra o currículo da educação sexual de Ontário, por entenderem isso como algo que está fortemente contra suas crenças religiosas e culturais. Como resultado, centenas de alunos foram retirados das sala de aulas para protestarem com eles. No mesmo ano, uma escola de Calgary tomou uma bofetada (sic) com uma multa de US$26.000 por proibir que estudantes Muçulmanos orassem no campus.
  • Em 2016, uma mãe em Port Alberni apresentou uma petição à Suprema Corte, contestando que seus filhos participem de uma cerimônia de limpeza indígena na escola, citando a liberdade religiosa.

E agora o Peel Board. Estes são alguns eventos que destacam um discurso público polêmico que ameaça alterar fundamentalmente a sociedade Canadense.

O último mês de Setembro marcou 28 anos desde que um grupo de pais de Sudbury teve a Oração do Senhor removida das escolas públicas de Ontário. Em 1988, criou-se muita controvérsia, pois muitos na época consideravam a religião uma parte inseparável da vida pública. Enquanto o debate sobre a separação entre religião e Estado continua, as escolas Canadenses, ao longo do tempo, removeram quase todas as referências às orações Cristãs e símbolos, uma conquista notável desde que o Canadá permaneceu predominantemente Cristão. No entanto, ao mesmo tempo, a acomodação de outras religiões minoritárias ganhou força no sistema escolar, uma política bem intencionada, mas complicada, e que pode ser desastrosa para o tecido multicultural da sociedade Canadense.

O Canadá é um mosaico de diversidade cultural, étnica e religiosa, onde pessoas de todas as religiões gozam de liberdade religiosa garantida pela Carta dos Direitos e Liberdades. Com o multiculturalismo e a liberdade religiosa, porém, surge o desafio de uma definição, interpretação e de uma política mais pragmática com relação integração religiosa e seu lugar na sociedade Canadense, e nas escolas em particular. A religião é parte integrante da história humana e continua a desempenhar um papel significativo na definição do código moral e espiritual de um grande número de pessoas. Todas as religiões têm algo grande e positivo, mas, sem banalizar qualquer religião, pode-se facilmente argumentar que muitas crenças em todas as religiões são incompatíveis e, às vezes, em flagrante conflito com o compromisso do Canadá, com os princípios democráticos liberais de justiça e igualdade e, francamente, até mesmo o pensamento científico. A lei Canadense dá às pessoas a liberdade para praticarem suas crenças, e a sociedade e as empresas em geral são educadas, aceitando as sensibilidades religiosas. No entanto, é imperativo que a religião permaneça no domínio pessoal e que nossas políticas não façam qualquer exclusão para ela no nosso sistema de educação pública. Qualquer isenção que privilegie as crenças religiosas, tem o potencial de fomentar a intolerância, a segregação e a confusão e, acabará por ser insustentável. Não há racionalidade inteligentemente coerente para acomodar a religião na esfera pública além do que seria considerado razoável e de acordo com as leis canadenses.

Independentemente das posições morais, políticas ou espirituais que possamos tomar, a história mostra que a introdução e o reconhecimento da religião na vida pública cria descontentamento e, eventualmente, conflitos. A acomodação religiosa no sistema educacional, em particular, apresenta um problema complexo com resultados não intencionais, tal como um flagrante conflito com os valores Canadenses, o potencial de fomentar a intolerância, a injustiça para com aqueles que não são religiosos e, finalmente, a questão de seu lugar num sistema escolar público.

Conflito com valores e leis Canadenses

A questão sobre quais são os valores Canadenses e quais posições morais, políticas ou espirituais que assumimos coletivamente — tem sido um problema, em grande parte devido à composição multicultural de nossa sociedade. A maioria dos Canadenses, no entanto, concorda que entre os extremos paradoxais da unidade e da pluralidade, somos uma sociedade coesa, com uma profunda diversidade e acreditamos em valores de liberdade, igualdade, tolerância e respeito mútuo.

Nosso sistema de educação inclusivo não só transfere conhecimento para as crianças, mas também as ajudam a navegar nas interações sociais com colegas de diferentes identidades étnicas, culturais e sexuais. É, portanto, a pedra angular da criação de uma sociedade tolerante, criativa e sustentável. Infelizmente, existem várias crenças religiosas que não encorajam isso. Por exemplo, existem crenças religiosas que não oferecem o estatuto de igualdade para as mulheres ou consideram a sexualidade alternativa como um pecado e, portanto, uma criança sujeita às mensagens contraditórias do sistema escolar e religião acaba confusa ou com um sistema de valores diferentes. As crenças religiosas também chegam, às vezes, no caminho da compreensão científica, como a rejeição da razão e da evidência ao abraçar o criacionismo, um mito desacreditado pela evidência científica e que é ensinado no currículo de ciência. O que isso significa para o nosso futuro, se uma porção significativa de nossos alunos rejeitar fatos e aceitar uma fábula? Algumas religiões também ensinam a repulsa às atividades artísticas, como música e pintura. Recentemente, um pai de Toronto retirou seus três filhos pequenos para fora da classe de música porque batia de frente com a sua fé Muçulmana, e pediu uma isenção para eles sob as leis da liberdade religiosa. Embora isso tenha desencadeado um debate público, a realidade é que uma isenção nesse caso sinalizaria que o sistema reconhece que somos inerentemente incapazes de viver e aprender juntos e que é correto que nossas crenças religiosas nos impeçam de uma assimilação educacional e artística. Essa é uma mensagem muito forte e perigosa.

Apesar das limitações, a educação moderna procura incentivar a criatividade, o pensamento analítico, crítico e a investigação científica, e os resultados estão lá para todos verem. Pelo contrário, muitas religiões desencorajam o pensamento livre e preferem a subjugação completa e inquestionável, geralmente por meio da memorização devocional e do repetindo mecanicamente as passagens religiosas das escrituras. Existem crenças como as que defendem a poligamia e pregam contra a vacinação, por exemplo. Não só essas crenças estão contra a lei Canadense, mas também podem colocar a vida das crianças em risco. Há também a questão das mensagens conflitantes em várias religiões e cada asserção de superioridade espiritual e moral, podem levar ao isolamento, discriminação e conflito entre os alunos. Esse é um forte contraste com a natureza inclusiva da educação pública que ensina a aceitação de todas as fés e identidades. Portanto, ao permitir a prática religiosa ou as exceções nas escolas, o sistema aprova inadvertidamente as mensagens contrastantes e o fluxo dicotômico na aprendizagem.

Injusto para com os outros

O sistema escolar público tem um conjunto de regras universais que proporcionam oportunidades iguais e opções que os estudantes são livres para escolherem, dependendo de suas preferências. Em contraste, ter regras diferentes para diferentes alunos no mesmo sistema é claramente injusto e desigual. Assim, quando um estudante está isento de um crédito artístico na escola secundária porque está em conflito com suas crenças religiosas, é grosseiramente injusto com outros estudantes que têm que trabalhar duro durante todo o ano acadêmico para obter o crédito, sem o qual não podem obter o sua diploma. Os professores não podem agendar exames, laboratórios ou novos conceitos nas Sextas-feiras, porque alguns alunos podem estar fazendo orações, deixando injustamente os outros alunos basicamente de braços cruzados, enquanto os outros retornam. Isso só vai piorar e complicar mais à medida que o sistema escolar fica sobrecarregado com potenciais pedidos de acomodação religiosa vindo de mais de uma dúzia de religiões do Canadá, que podem achar injusto que o sistema apenas aceite o pedido de um determinado grupo. Os Hindus, por exemplo, podem pedir uma sala de oração às Terças e Quintas-feiras, de acordo com suas crenças, e suas orações são frequentemente acompanhadas por sopros em conchas e toques altos de sinos, algo que as escolas podem não ser capazes de lidarem. Por um lado, num país predominantemente Cristão, as expressões Cristãs, os símbolos e as orações nas escolas públicas foram removidos, enquanto, por outro lado, o sistema é forçado a abrir espaço para outras religiões. Quão justo é isso? Se o Cristianismo não é aceitável nas escolas públicas, então nenhuma religião deve ser permitida. Nem o Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo, Budismo, Sikhismo ou qualquer outro sistema religioso.

Muitas vezes as diretrizes religiosas são rígidas e os seguidores rejeitam tudo aquilo que, mesmo remotamente, representa qualquer coisa proibida por sua religião. A questão não é da diferença entre crenças, mas a divisão irônica cria acomodações. Os Muçulmanos não comem carne de porco, por exemplo, e isso deveria ser uma questão de escolha pessoal. Quando as escolas proíbem completamente todos os produtos de porco para acomodá-los, tornam-se injustas com todos os outros alunos que querem saboreá-la ou para quem faz parte de uma dieta regular. O mesmo se aplica à carne bovina ou produtos kosher para Hindus e Judeus, respectivamente. Isso cria uma divisão subconsciente e ressentimento entre os alunos. A desigualdade explícita criada pelas isenções religiosas é muito mais prejudicial do que a desigualdade não intencional causada pelo sistema escolar regular. Os alunos que saem do sistema escolar podem assim escolher uma identidade principalmente religiosa e não a Canadense. Como um exemplo, quando um MP Muçulmano ganhou a eleição de Mississauga, foi aclamado como uma vitória para o Islã, um desprezo flagrante e desrespeito para todos que votaram nele, e ironicamente para o escritório democrático que ele ganhou. Primeiro precisamos ser Canadenses, o resto é secundário, e a escolha é sua.

Se as crianças saírem do sistema escolar com um sentido primordial de identidade religiosa e não Canadense, será o fracasso de nossos valores sociais coletivos. Ninguém quer ver estudantes de diferentes religiões gastando mais tempo em atividades religiosas e discursos do que aprendendo coisas que os ligam com os fios de tolerância, aceitação e respeito mútuo. O interesse mais amplo e mais profundo em outras religiões e na religião comparada é um desenvolvimento significativo da educação moderna e deve ser encorajado na escola. Mas não podemos competir com outras economias globais se nossas crianças estiverem focadas no discurso religioso ao invés de matemática, ciência, artes e esportes. Conceder exclusões e isenções, — aos crentes religiosos, — das políticas escolares, métodos e currículos com os quais discordam, derrota o nosso compromisso com a justiça e igualdade. As crianças são livres para aprender a sua religião e identidade étnica em casa e o sistema escolar tem uma obrigação fundamental de tratar a todos igualmente.

Para onde devemos ir?

Os principais argumentos utilizados pelos grupos religiosos que buscam acomodação no sistema de escolas públicas são a lei da liberdade de religião e o financiamento público das escolas Católicas.

No que se refere à liberdade religiosa, as leis precisam definir explicitamente o reino da liberdade religiosa. Enquanto todas as religiões precisam ser tratadas igualmente e de forma justa, a religião deve continuar a ser uma questão de domínio pessoal e nenhuma isenção ou acomodação deve ser permitida em qualquer instituição pública de ensino. Os alunos devem ser livres para vestir o que quiserem, comer e acreditar no que quiserem e praticar qualquer religião que queiram, mas de forma alguma deve significar uma acomodação sistêmica. Se os alunos querem educação religiosa, têm a liberdade de ir a uma Igreja, Mesquita, Sinagoga ou templo, e até mesmo para sua própria casa, mas as escolas devem permanecer instituições não religiosas. Isso não seria uma decisão contra pessoas de fé, mas simplesmente uma regra que mantém a sociedade e os valores Canadenses equitativos e acima de tudo.

Junto com isso, porém, inevitavelmente vem o argumento do financiamento público das escolas Católicas. Muitos argumentam que o patrocínio de uma religião pelo Estado é uma violação do seu dever de neutralidade e equivale a discriminação contra todas as outras religiões. Portanto, uma decisão para remover qualquer acomodação religiosa nas escolas não pode ser aplicada (nem provavelmente seria legal) enquanto as escolas Católicas permanecerem financiadas publicamente. Isto é um anacronismo à espera de ser encerrado por uma parte corajosa da legislatura. Provavelmente haveria resistência substancial a isso, considerando que o Canadá ainda é predominantemente Católico, e os políticos talvez considerem politicamente oportuno deixar o status quo do jeito que está. No entanto, se a derrota da eleição de John Tory em 2007 é alguma indicação, as pessoas podem muito bem ser a favor disso. Escolas Católicas teriam a opção de permanecerem financiadas, mas removendo o seu currículo religioso, ou optarem pelo seu próprio financiamento. Seria bastante lamentável ver o sistema Católico, que tem uma longa história no Canadá, ser demitido, mas isso certamente enviaria uma forte mensagem a todos aqueles que buscam complicar a educação pública com a religião.

Todos os estudantes devem aprender “sobre” as religiões e seu lugar na história e na sociedade da humanidade, na medida em que lhes ensinem a aceitação, a igualdade e o respeito, mas num sistema público escolar não deve ser feito acomodações religiosas. Mantenha a religião fora das escolas Canadenses.


Tradução: Tião Cazeiro — Muhammad e os Sufis

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