Presidente Sisi revisita “A Crise de Identidade do Egito”

Foto:  Tutankhamun: Sua Tumba e Seus Tesouros. 

Fonte/Source:  President Sisi Revisits ‘Egypt’s Identity Crisis’ by Raymond Ibrahim

Presidente Sisi revisita “A Crise de Identidade do Egito”

Por Raymond Ibrahim

Nota do Blog: Resolvi publicar novamente este brilhante artigo para que sirva também de reflexão nos debates correntes sobre o crescimento do Islã no Brasil. Trata-se de um momento histórico do Egito. Infelizmente o vídeo mencionado não está legendado em Português, mas o artigo apresenta uma breve tradução do discurso. Serve também como complemento do artigo: Al-Sisi: O “Pensamento” Islâmico está “Antagonizando o Mundo Todo”.


FrontPage Magazine

27 de Janeiro de 2015

De todos os últimos pedidos de reforma feitos pelo Presidente Egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, talvez o mais inflexível tenha sido a sua insistência para que todos os Egípcios – Muçulmanos e Cristãos – enxergassem a si próprios em primeiro lugar como Egípcios.

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O Moderno versus O Antigo Egito

Isso ficou muito claro quando Sisi visitou a Catedral Ortodoxa Copta de São Macos durante a missa de Véspera de Natal. Em seguida, de forma apaixonada — assista a este vídeo emocionante clicando aqui:

“Ouça, é muito importante que o mundo deva nos assistir…  Que o mundo deva nos ver, Egípcios…  E você notará que nunca uso uma palavra que não seja “Egípcios”… Não é correto chamar uns aos outros por qualquer outro nome…  Nós somos Egípcios. Que ninguém pergunte “que tipo de Egípcio é você?” [Copta ou Muçulmano]… Como disse, o Egito trouxe uma mensagem humanista e civilizatória para o mundo há milênios e nós estamos aqui hoje para confirmar que somos capazes de realizar isso de novo…  É por isso que não devemos nos chamar outra coisa que não seja “Egípcios.” – Egípcios, apenas Egípcios, Egípcios de fato!”

Ironicamente, voltando a 14 de fevereiro de 2011, quando a primeira revolução Egípcia eclodiu (na ocasião chamada de “Primavera Árabe”), escrevi um artigo exatamente sobre o mesmo ponto, argumentando que “o futuro do Egito se inicia quando os Egípcios enxergarem-se como Egípcios.”

Intitulado “A Crise de Identidade do Egito“, o artigo explorou como a identidade Egípcia se perdeu em etapas.

O artigo também previu a sedução/ameaça representada pela Irmandade Muçulmana — mais de um ano antes do grupo chegar ao poder sob a presidência de Morsi.

Ainda sobre esse último tema, em 2 de fevereiro de 2011, quando Hosni Mubarak ainda estava no poder, previ nesse artigo que “a Irmandade Muçulmana assumiria o Egito via renúncia. E caso acontecesse, o Oriente Médio se agitaria como nunca se viu na era moderna” — o que se confirmou verdadeiro após a maior revolução da história da humanidade ter deposto a Irmandade Muçulmana, em Junho 2013.

Devido à repercussão e a importância para os Egípcios, de se enxergarem como Egípcios — Sisi, que agora está inflexivelmente chamando de — “A Crise de Identidade do Egito” (artigo publicado pela primeira vez no dia 14 de fevereiro, 2011) será reproduzido a seguir.

*****

Com a “Revolução de Julho” no Egito em 1952, pela primeira vez em milênios, os Egípcios foram capazes de vangloriar-se de que um nativo-nascido Egípcio, Gamal Abdel Nasser, iria governar sua nação: Desde o seu último Faraó nativo derrubado a cerca de 2.500 anos atrás, o Egito tem sido governado por uma série de invasores — Persas, Gregos, Romanos, Árabes, Turcos e Britânicos, entre outros. Depois de 1952, entretanto, acreditava-se que o Egito, poderia finalmente voltar a ser Egípcio.

No entanto, embora Nasser fosse Egípcio, o espírito dos tempos que o levou ao poder era Árabe — Nacionalismo Árabe, ou “Pan-Arabismo” — teoria de que todos os povos de língua Árabe, do Marrocos ao Iraque, deveriam ser unificar. (Junto com Nasser, a onda do Pan-Arabismo também levou ao poder — Muammar Kadafi da Líbia, Hafez Assad da Síria e Saddam Hussein do Iraque).

A revolução significativamente Arabizou o Egito. O nome oficial do Egito tornou-se então República Árabe do Egito — ao invés de simplesmente República do Egito — já fala por si. Considerando que, antes de 1952, alguém pudesse ter falado sobre o caráter nitidamente “Egípcio” e sua identidade, a partir de então, essa identidade deu lugar a uma identidade Árabe. Daí por diante, bastou um pequeno empurrão para uma identidade Islâmica. Ou, como o Egiptólogo Wassim al-Sissy definiu recentemente que a revolução, “apagou o caráter Egípcio, que tinha sido conhecido por sua tolerância, amor, liberdade, e assim por diante. A revolução criou uma nação de escravos.”

Meus pais, de origem Egípcia, que viveram pessoalmente a Revolução de 1952 antes de imigrar para os Estados Unidos, muitas vezes recordavam essa mudança. Durante a minha juventude costumava ouvir como a pré-revolução do Egito foi absolutamente nada comparada com hoje. De acordo com eles, por causa do domínio Britânico, ela foi mais livre e mais secular; quase nenhuma mulher usava o hijab (véu); Alexandria era uma espécie de “mini-Europa”.

Na verdade, se você observar as fotografias do Egito tiradas em 1940 e compará-las com imagens de hoje, você poderá pensar que as primeiras foram tiradas na Europa, e as de hoje na Arábia.

Em suma, os Egípcios viam a si mesmos em primeiro lugar como Egípcios. Certamente nenhum Egípcio iria ser referir a si mesmos como “Árabes” — uma palavra antiga que significava “beduínos inferiores” (lowly bedouins) para os ouvidos Egípcios. (Afinal de contas, para os Egípcios, pensar em si mesmos como “Árabes”, só porque sua primeira língua é o Árabe, é tão lógico quanto o negro Americano pensar sobre si como um “Inglês”, só porque sua primeira língua é o Inglês.) Nas décadas anteriores à revolução, houve ainda um forte Movimento Faraônico (Pharaonist Movement), liderado por pensadores influentes como Taha Hussein, que procurou definir e promover um caráter nitidamente Egípcio.

Hoje [escrevendo em Fevereiro de 2011], enquanto o Egito explode com a revolução, é razoável prever uma identidade ainda mais alienígena. Insira a Irmandade Muçulmana: se a revolução de 1952 Arabizou o Egito, o poder nas mãos da Irmandade Muçulmana irá islamizá-lo totalmente levando-o ainda mais longe de suas raízes. Enquanto que os nacionalistas Árabes do Egito mantiveram o caráter remanescente dos Egípcios — O Islã foi notoriamente relapso — a marca Salafista do Islã promovida pela Irmandade Muçulmana desde sua fundação em 1928 é totalmente alienígena para o Egito.

Por exemplo, ao contrário do nacionalista Árabe Egípcio, que tem um grande orgulho da herança ancestral de sua nação, o Islamita Egípcio de hoje exulta em rejeitá-lo e condená-lo. Chamam os Faraós de “infiéis” e “tiranos” (de acordo com a terminologia do distintamente Árabe Alcorão) e ainda tentam destruir o maior orgulho do Egito, os seus tesouros — como vimos nos recentes ataques a museus — um comportamento incoerente com alguém que pensa de si mesmo como um “Egípcio”.

Nasci nos Estados Unidos, mas retornei várias vezes ao Egito, a partir de 1974, quando eu tinha um ano de idade. Minha experiência sobre a evolução da identidade do Egito difere dos meus pais: enquanto eles assistiam à Arabização do Egito, eu observava a sua Islamização. Contudo, por experiência pessoal, sei também que dificilmente todos os Egípcios compartilham da ideologia da Irmandade Muçulmana: para os iniciantes, há uma minoria Cristã significativa, os Coptas, que têm claramente mais a perder se a Irmandade chegar ao poder; depois, há muitos secularistas. Dito de outro modo, um grande número de revoltados nas ruas do Cairo estão fazendo isso por razões banais — comida e trabalho — exatamente para implementar a Sharia (que, aliás, já é a “principal fonte da legislação” na Constituição do Egito).

O problema, porém, é que, além de ter uma forte base de apoio direto, a Irmandade Muçulmana está especialmente posicionada para assumir a liderança simplesmente porque muitos muçulmanos, embora indiferentes à visão ideológica da Irmandade, estão confiando neles. Afinal, a famosa estratégia do Hamas de cativar o povo, provendo suas necessidades básicas, foi aprendida diretamente com a sua organização-mãe: A Irmandade Muçulmana do Egito.

Assim, enquanto o tumulto engolfa o Egito, é bom lembrar que, fundamentalmente, a forma de como os Egípcios se veem é que vai determinar o quem irão se tornar. O futuro do Egito se inicia quando Egípcios enxergarem-se como Egípcios e não como Árabes, e certamente não como Islâmicos. Isso não quer dizer que os Egípcios devam ressuscitar a língua dos Faraós, vestido como um Imhotep e cultuando gatos. Ao contrário, como Taha Hussein e outros que até hoje mantêm, a identidade Egípcia precisa ser ressuscitada, permitindo assim que todos os filhos e filhas da nação trabalhem juntos para um futuro melhor — sem o peso morto das influencias estrangeiras, nomeadamente Arabismo ou, pior, Islamismo.


Tradução: Tião Cazeiro — Muhammad e os Sufis

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