Como o Mundo Islâmico foi Forjado: Um Exercício de Senso Comum

Fonte/Source:  How the Islamic World was Forged: An Exercise in Common Sense | Raymond Ibrahim 


Nota do blog: Resolvi reeditar e publicar novamente este artigo por causa dos ataques recentes às igrejas no Egito.


Como o Mundo Islâmico foi Forjado: Um Exercício de Senso Comum

Por Raymond Ibrahim

 31 de Agosto de 2015

FrontPage Magazine

O que levou os não-Muçulmanos a se converterem ao Islã, levando à criação do mundo Islâmico?

Fontes históricas primitivas — ambas Muçulmanas e não-Muçulmanas — deixam claro que o império Islâmico foi forjado pela espada e que as pessoas abraçaram o Islã, não muito pela fé sincera, mas por uma miríade de razões,  desde a conversão com o intuito de aproveitar as benesses do “time ganhador” até a conversão com o intuito de escapar do infortúnio de estar no “time perdedor”.

É claro, como mencionado, que os primeiros textos da história estão repletos de episódios demonstrando o oposto.  No entanto, pelo fato da nossa sociedade estar cada vez mais anti-histórica, neste ensaio, me empenho para mostrar que, o puro senso comum em si, valida o que os registros históricos revelam, a saber, que o mundo Islâmico foi forjado através de violenta coerção.

E para demonstrar, usarei o Egito,  uma das mais importantes nações Muçulmanas e minha terra ancestral — como paradigma. Vou demonstrar como um fato histórico, do qual apologistas Islâmicos habitualmente se gabam  de que ainda existem milhões de Cristãos no Egito (aproximadamente 10% da população)  não é prova de tolerância Islâmica, mas sim de intolerância.

No século VII, no tempo em que o Islã estava sendo formulado, o Egito já era Cristão há séculos, [1] bem antes da Europa ter sido convertida. A Alexandria era um dos mais importantes centros eclesiásticos da antiga aprendizagem Cristã e junto com Roma e Antioquia, uma das três (Santa Sé) originais. [2]  Muitas evidências literárias e arqueológicas em andamento atestam para o fato de que o Cristianismo permeou todo o Egito.

Escrevendo por volta do ano 400,  mais ou menos dois séculos e meio antes da invasão Árabe,  John Cassian, um monge Cristão da região atualmente conhecida como moderna Romênia, observou que,

Um viajante de Alexandria ao norte, se dirigindo para Luxor ao sul ouviria ao longo da jornada os sons das rezas e rimas dos monges dispersos no deserto, dos monastérios e das cavernas, dos monges, eremitas e anacoretas. [3]

E nos últimos tempos, ambos, os mais antigos pergaminhos contendo palavras do Evangelho (que datam do século I) e a mais antiga imagem de Cristo foram descobertas em regiões separadas do Egito.

Possivelmente a mais antiga imagem de Cristo, descoberta no Egito e datada do primeiro século.

A questão agora passa a ser: o que fez essa nação tão antiga e intensamente Cristã se tornar Islâmica? Mais especificamente, o que fez os ancestrais dos atuais Muçulmanos do Egito, muitos dos quais eram Coptas Cristãos, se converterem ao Islã?

Para obter uma resposta objetiva a essa questão, um fator completamente ignorado deve ser considerado.

No século VII, quando os Árabes Muçulmanos invadiram o Egito, adentrando a era medieval, a religião não era algo para casualmente se aderir ou mudar como acontece hoje em dia no Ocidente. As pessoas daquela época eram verdadeiramente crentes, não havia uma narrativa alternativa,  não existiam reivindicações do tipo “Ciência x Deus”.

Seja qual for a religião em que uma pessoa tivesse nascido, era aceita com convicção absoluta — apesar dos muitos filmes projetando modernidade sobre os Cristãos Medievais. (Assim, o personagem central do Kingdom of Heaven, Balian e todos os outros protagonistas Cristãos rejeitam o “Cristão fanático” e exibem alguém mais aberto, tolerante e uma visão “sutil” sobre religião, incluindo o Islã. Tais representações são anacrônicas, com muito pouco embasamento histórico.)

Na Europa Medieval, a realidade do Cristianismo era gravada na mente de todos, do jovem ao mais velho. Não havia dúvida porque não havia alternativa. Conforme o historiador de Europa Medieval e Cruzadas, Thomas Madden coloca:

O mundo medieval não era o mundo moderno. Para as pessoas medievais, a religião não era algo que alguém apenas fez na Igreja. Era a ciência dele, filosofia, política, identidade e sua esperança de salvação. Não era uma preferência pessoal, mas uma verdade duradoura e universal.

Nesse contexto, apostatar, deixar a fé Cristã, especialmente por outra crença, era a coisa mais impensável de todas as transgressões contra a própria alma, um pecado que poderia levar a eterna danação.

“É a vontade de Deus!” Representações típicas de cruzados “hipócritas” em Kingdom of Heaven

É claro que a situação era a mesma com os Muçulmanos. O ponto aqui é que o homem pré-moderno levou a religião do seu povo, de sua tribo, do seu mundo, muito a sério, especialmente quando tais religiões ensinavam que o incumprimento da obrigação, ou pior, o desejo de apostatar o conduziria ao inferno eterno .

Dito de outro modo, mesmo que o Islã oferecesse um apelo intrínseco, a ideia de que os Cristãos pré-modernos eram “livres” para escolher a conversão,  livre da culpa, livre do medo, livre do trauma existencial  é puro anacronismo e, portanto implausível.

Mais uma vez, o homem Ocidental, que vive na era em que as pessoas trocam de religião com a mesma frequência que trocam de sapatos, deve ter muita dificuldade de apreciar plenamente essa ideia. Mas mesmo assim é verdade.

Após escrever que “os Cristãos viram as cruzadas ao leste como atos de amor e caridade, travadas contra os conquistadores Muçulmanos em defesa do povo Cristão e suas terras,” Madden colocou corretamente:

É muito fácil, para as pessoas modernas, descartarem as cruzadas como moralmente repugnantes ou cinicamente más. Esses julgamentos, no entanto, nos dizem mais sobre o observador do que o observado. São baseados unicamente em valores modernos (e, portanto, Ocidentais). Se, da segurança do nosso mundo moderno, somos rápidos em condenar a cruzada medieval, devemos estar cientes de que eles, também poderiam ser tão rápidos quanto, em nos condenar [a respeito dos nossos valores e prioridades]… Em ambas as sociedades, a medieval e a moderna, as pessoas lutam por aquilo que é mais importante para eles. [4]

Se os Europeus eram assim tão dedicados ao Cristianismo na era medieval, o que dizer dos Coptas do Egito, os quais já eram Cristãos há muitos séculos atrás? De fato, de acordo com algumas fontes históricas, os antigos Cristãos do Egito devem ter sido especialmente obstinados à exaustão.

O que então aconteceu, fazendo com que todos se convertessem ao Islã em massa, é a questão diante de nós?

Seria plausível acreditar que os primitivos conquistadores Muçulmanos do Egito não discriminaram contra os Cristãos nativos ou pressionaram para que se convertessem ao Islã (mesmo quando os Muçulmanos atualmente o fazem em plena era “iluminada” moderna)??

Isso é verdade, cita o professor John Esposito da Universidade de Georgetown, que os Cristãos “eram livres para praticar a sua fé de culto, para serem governados pelos líderes de sua religião e leis em áreas como casamento, divórcio e herança. Em troca, eram obrigados a pagar um tributo, um imposto de proteção (jizya) que os autorizavam a serem protegidos por Muçulmanos contra agressão externa e que os isentava do serviço militar”. refutação dessa afirmação.

De fato, o senso comum sugere nada menos que, circunstâncias extremamente severas, dificuldades  e perseguição, levaram os Coptas a se converterem ao Islã.

Claro, para o historiador que lê as fontes primárias — em oposição às principais obras de ficção sendo propagadas por tipos como Karem Armstrong entre outros  o exercício acima de senso comum é supérfluo.

As fontes primárias deixam claro que, enquanto os Coptas do Egito aquiesceram com o status de dhimmi  ou seja, — constantemente pagando somas enormes de dinheiro extorquido e aceitando a vida como pessoa de terceira classe, com pouquíssimos direitos, simplesmente por serem Cristãos — ataques de extrema perseguição explodiam regularmente. E a cada um desses, mais e mais Cristãos se convertiam ao Islã com o intuito de achar um alívio. [5]

Um exemplo revelador: Na história Muçulmana, no livro de Taqi al-Din al-Magrizi (d. 1442) a História Autêntica do Egito, episódio após episódio, registram Muçulmanos queimando Igrejas, assassinando Cristãos e escravizando suas mulheres e crianças. A única saída, então,  como acontece cada vez mais atualmente, era os Cristãos se converterem ao Islã.

Depois de registrar um ataque particularmente escandaloso de perseguição, onde muitos Cristãos foram massacrados, escravizados e estuprados; onde declaradamente cerca de 30.000 Igrejas do Egito e da Síria foram destruídas —  um número impressionante que indica também como os Cristãos do Oriente Próximo eram antes do Islã — o piedoso historiador Muçulmano deixa bem claro o porquê de Cristãos convertidos: “Nessas circunstancias um grande número de Cristãos tornaram-se Muçulmanos” (ênfase do autor). [6]

Paralelamente, em tempos de extrema perseguição, o enraizado sistema dhimmi, viu o empobrecido povo Egípcio lentamente se convertendo ao Islã ao longo de séculos, de modo que hoje apenas 10% permanecem Cristãos.

Considere as palavras de Alfred Butler, um historiador do século XIX, escrevendo antes do politicamente correto chegar ao meio acadêmico. O livro, A Conquista Árabe do Egito, destaca “o vicioso sistema de subornar os Cristãos para a conversão”.

Embora a liberdade religiosa estivesse, em teoria, assegurada aos Coptas sob a rendição, isso logo provou de fato ser sombrio e ilusório. Uma liberdade religiosa que se tornou identificada com a escravidão social e financeira, não poderia ter substancia nem vitalidade. Como o Islã se espalhou, a pressão social sobe os Coptas se  tornou enorme, e a pressão financeira, pelo menos, pareceu mais difícil de resistir, enquanto  o número de Cristãos ou Judeus responsáveis pelo pagamento do imposto [jizya] diminuiu ano após ano, e o seu isolamento tornou-se conspícuo… Os encargos dos Cristãos cresceram com força, em proporção à medida que seus números diminuíram [isto é, quanto mais Cristãos eram convertidos ao Islã, mais encargos recaiam sobre os poucos que restavam]. A maravilha, portanto, não é que muitos Coptas tenham se rendido à corrente, a qual os irritou com uma força arrebatadora sobre o Islã; mas que uma imensa multidão de Cristãos permaneceu firme contra a corrente, e nem mesmo todas as tempestades em treze séculos, conseguiram mover a fé deles da pedra de sua fundação. [7]

O leitor deve ter em mente que, embora a exposição acima seja a respeito do Egito, o mesmo paradigma se aplica ao resto das terras Cristãs conquistadas. Hoje em dia, toda a África é declaradamente 99% Muçulmana, e no entanto, poucos estão cientes de que era em sua maioria Cristã, no século VII, quando o Islã a invadiu. Santo Agostinho — indiscutivelmente o pai da teologia Cristã Ocidental — é oriundo da atual moderna Argélia.

Assim, não é exagero dizer que o “mundo Muçulmano” seria uma pequena fração de seu tamanho atual, ou talvez não existisse, se não fosse o fato de que os não-Muçulmanos se converteram ao Islã simplesmente para fugir da opressão e da perseguição. Uma vez que todos esses Cristãos se converteram ao Islamismo, todos os seus descendentes se tornaram Muçulmanos em perpetuidade, graças à lei de apostasia do Islã, a qual proíbe os Muçulmanos de deixarem o Islã sob pena de morte. “Na verdade, de acordo com o Dr. Yusuf al-Qaradawi, um líder clérigo no mundo Muçulmano, se a pena de [morte] por apostasia fosse ignorada, hoje em dia o Islã não existiria; o Islã teria desaparecido com a morte do profeta.”

Portão ensanguentado de uma Igreja Cristã Copta no Egito – uma das muitas dezenas atacadas nos últimos anos.

O qual leva a uma das ironias mais amargas do Islã: um grande número de Cristãos atualmente, especialmente no mundo Árabe, estão sendo perseguidos pelos Muçulmanos, cujos próprios ancestrais foram Cristãos perseguidos, que se converteram ao Islã para acabar com o seu próprio sofrimento. Em outras palavras, os Muçulmanos descendentes de Cristãos estão, hoje em dia, perseguindo seus primos Cristãos e portanto, perpetuando o ciclo que os tornou Muçulmanos em primeiro lugar.

Fazer uma longa história curta é simples: Passado e presente, o Islã tem sido uma religião de coerção [8]. Mais da metade do território que uma vez pertenceu à Cristandade  incluindo o Egito, Síria, Turquia e África do Norte, foi convertido ao Islamismo devido a episódios de extrema violência e sangria financeira constante.  O Estado Islâmico (ISIS), as organizações similares e os Muçulmanos ao redor do mundo não são aberrações, mas continuações. A violência, a intolerância e a coerção que eles exibem — pressionando os Cristãos a se converterem ao Islã, obrigando os Muçulmanos a permanecerem no Islã — criou  e sustenta o que hoje é conhecido como mundo Islâmico.

Não somente temos uma infinidade 
de material original 
provando todas essas conclusões, 
como também o senso comum puro, 
que demonstra tão bem quanto.

Referências Bibliográficas das notas e citações:

Nota do tradutor: Deste ponto em diante, de interesse restrito, deixarei o texto na forma original.


[1] St. Mark began evangelizing Egypt in the middle of the 1st century.
[2] That two of the three original sees of Christianity originated in what are now two Muslim nations—Egypt and Turkey—further speaks to the Christian nature of the Middle East before the Islamic invasions.

[3] Abba Anthony, Coptic Orthodox Patriarchate, Saint Anthony Monastery, March 2014, issue #3, p.6).

[4] Thomas Madden, The New Concise History of the Crusades (NY: Barnes and Noble, 2007), 223.

[5] As Muslims grew in numbers over the centuries in Egypt, so did persecution (according to Islam’s Rule of Numbers), culminating in the immensely oppressive Mameluke era (1250-1517), when Coptic conversion to Islam grew exponentially.

[6] Taqi Ed-Din El-Maqrizi, A Short History of the Copts and Their Church, trans. S. C. Malan (London: D. Nutt, 1873), 88-91.

[7] Alfred Butler, The Arab Invasion of Egypt and the Last 30 Years of Roman Dominion (Brooklyn: A & B Publishers, 1992), 464. One of the major themes throughout Butler’s book—which, first published in 1902, is heavily based on primary sources, Arabic and Coptic, unlike more modern secondary works that promote the Islamic “liberator” thesis—is that “there is not a word to show that any section of the Egyptian nation viewed the advent of the Muslims with any other feeling than terror” (p. 236):

Even in the most recent historians it will be found that the outline of the story [of the 7th century conquest of Egypt] is something as follows: …. that the Copts generally hailed them [Muslims] as deliverers and rendered them every assistance; and that Alexandria after a long siege, full of romantic episodes, was captured by storm.  Such  is the received account.  It may seem presumptuous to say that it is untrue from beginning to end, but to me no other conclusion is possible. [pgs. iv-v]

Butler and other politically incorrect historians were and are aware of the savage and atrocity-laden nature of the Islamic conquests.  The Coptic chronicler, John of Nikiu, a contemporary of the Arab conquest of Egypt and possibly an eyewitness, wrote:

Then the Muslims arrived in Nikiu [along the Nile]… seized the town and slaughtered everyone they met in the street and in the churches—men, women, and children, sparing nobody.  Then they went to other places, pillaged and killed all the inhabitants they found….  But let us say no more, for it is impossible to describe the horrors the Muslims committed…

Not, of course, that the average Muslim is aware of this fact. Indeed, in 2011 the Egyptian Muslim scholar Fadel Soliman published a book that was well received and widely promoted in the Islamic world, including by Al Jazeera, entitled Copts: Muslims Before Muhammad.  The book makes the ahistorical and anachronistic—in a word, the absurd—argument that Egypt’s 7th century Christians were really prototypical Muslims and that that is why Arabia’s Muslims came to “liberate” them from “oppressive” Christian rule.

[8] If not in theory, certainly in practice.   See “Islamic Jihad and the Doctrine of Abrogation.”


Tradução: Tião Cazeiro — Muhammad e os Sufis

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2 opiniões sobre “Como o Mundo Islâmico foi Forjado: Um Exercício de Senso Comum”

  1. Artigo claro, resumido e que faz muito sentido. Eu acrescentaria o seguinte detalhe. A religião muçulmana foi adotada por castas dominantes porque sua forma de lidar com a organização social era muito conveniente. Mais precisamente: nenhuma liberdade e submissão incondicional à ordem estabelecida baseada em escrituras sagradas (portanto inquestionáveis). Um exemplo do que acabo de afirmar é a conversão dos otomanos ao islamismo. Os otomanos, originariamente não eram muçulmanos, mas eram imperialistas e dominadores, e subjugavam outros povos. Quando os otomanos conquistaram as terras árabes, ele entraram em contato com a religião muçulmana e perceberam que esta religião aumentaria seu poder de domínio sobre outros povos. E assim, eles contribuíram para a expansão do mundo do Islã.

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