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A História e a Natureza do Terrorismo ao Longo dos Séculos

Fonte/Source: The History And Nature Of Terrorism Over The Ages | IndiaFacts

A História e a Natureza do Terrorismo ao Longo dos Séculos

rakeshsimha
Rakesh Simha

Por Rakesh Krishnan Simha @SimhaRakesh
Demografia (Perseguição & Proselitismo) | 07/12/2015

Apesar do terrorismo poder paralisar, não conseguem dominar. Até agora, nenhum Estado se dobrou ao terrorismo. Isso é um raio de esperança para as nações do mundo livre.

Outra semana, outro bombardeio. San Bernardino hoje, Bagdá ontem, alguma outra cidade infeliz amanhã. A ironia é que o resultado final é um grande e gordo zero. Enquanto as pessoas inocentes morrem,  terroristas realmente não alcançam algo tangível ou são capturados e muitas vezes executados. A cidade manca de volta ao normal, os terroristas voltam aos seus porões ou fábricas de bombas. Quando e onde tal loucura começou?

indiafact photo 2O terrorismo é uma forma extrema de bullying, sendo a palavra derivada da palavra Latina terrere, literalmente, “fazer tremer“. O uso do terror como meio de dissuasão ou punição, para ganhar poder, existe há milhares de anos. Enquanto os governantes historicamente sempre empregaram o terror para manter seus interesses sob controle, essa tem sido a arma preferida dos fracos.

O terrorismo tem como alvo a mente, porque suas vítimas não têm ideia de onde o próximo golpe virá. Tal como nas peças do autor Inglês Harold Pinter, o terror está sempre à espreita ao redor da esquina.

De acordo com Gerard Chaliand e Arnaud Blin em A História de Terrorismo —

O fato de que os casos mais notórios de terrorismo contemporâneo ter uma dimensão religiosa, não obstante seus objetivos políticos devem servir para nos lembrar de que isso também foi verdade, historicamente, na maioria das formas de terrorismo.

Um dos exemplos mais antigos de terror religioso ou sagrado é a violenta campanha desencadeada pelos Zelotes, um movimento político Judaico do primeiro século, durante um período de 70 anos. Conhecido por sua violenta resistência contra o domínio Romano, os Zelotes se rebelaram contra a sociedade Judaica, autoridades e líderes Judeus.

Os Zelotes possuíam um grupo terrorista conhecido como Sicari (homens violentos), que assassinaram Romanos e líderes Judeus com punhais. Essas ações foram, por vezes, também dirigidas aos cidadãos comuns e em lugares públicos. De fato, o Talmud descreve os Zelotes como biryonim, significando “grosseiro” ou “selvagem”; foram condenados por sua agressividade e relutância em se comprometerem a salvar os sobreviventes da Jerusalém sitiada, e seu militarismo cego.

O fervor dos Zelotes não ajudou a causa Judaica. O terrorismo dos Zelotes causou enorme repercussão em Romana, levando à destruição do Templo Judaico. O exército de Imperador Adriano derrotou os exércitos Judeus e a independência Judaica foi perdida. Jerusalém foi transformada em uma cidade pagã chamada Aelia Capitolina e os Judeus foram proibidos de viver lá. Assim começou a primeira dispersão dos Judeus e a criação da Diáspora.

Instigando a violência

No entanto, no planejado e sistemático uso de longo prazo do terror como arma política, os Nizari Ismailis  ou Assassinos do século 13 d.c. não têm precedente. Era uma Seita Muçulmana de Xiitas entrincheirada em uma centena de fortalezas sobre as montanhas inconquistadas, que se estende do Afeganistão à Síria, sendo Alamut, o Ninho da Águia, no norte da Pérsia, a mais importante. Cada fortaleza era uma “célula”, e as instruções sobre quem deveria ser assassinado era comunicada a essas células por Alamut, o quartel general.

Seus membros seguiam, sem questionar, as ordens de seu líder hereditário, o Imã. Porque acreditavam que se Alá escolheu o Imã, era portanto infalível; não precisava de educação, uma vez que tudo que fazia, não importava o quão estranho pudesse parecer aos mortais, era considerado divinamente inspirado. Seus seguidores aceitavam aparentemente atos irracionais, mudanças frequentes da lei, e até mesmo a reversão dos preceitos mais sagrados como evidência dos planos de Alá para a humanidade.

Apesar da falta de um exército convencional, a seita Ismail exerceu um tremendo poder político através de um sistema altamente sofisticado de terror e assassinato. O modus operandi da seita era matar qualquer um, particularmente líderes ou pessoas poderosas, que de alguma forma se opunham. Eles recrutavam jovens, com uma técnica tortuosa: atraídos para a fortaleza de Alamut, recebiam haxixe e nesse estado delirante eram levados a um belo palácio repleto de jardins e donzelas. Eram informados pelo Imã que estavam tendo um vislumbre do paraíso. E se tivessem sucesso em suas missões, após o qual a morte era inevitável, entrariam de imediato no paraíso, como mártires do Islã.

Chinesas, Persas e fontes Árabes se referem à mesma conta, de como os jovens foram atraídos pela ampla quantidade de haxixe entre outros prazeres terrenos que os aguardavam nos jardins especiais dos “castelos de areia”, fortalezas de culto. O fornecimento constante de haxixe manteve esses jovens obedientes e destemidos. Supostamente, por causa da importância dos narcóticos para os Muçulmanos Ismaelitas, as pessoas ao redor os chamavam de hashshashin, ou seja, “usuários de haxixe“.

Com o passar do tempo, esse nome se transformou na palavra assassino. Como as células terroristas modernas, os Assassinos empregaram uma rede de agentes secretos nos campos e nas cidades dos seus inimigos. Entre eles estavam os Turcos Seljúcidas e os califas em Bagdá (os Assassinos mataram dois califas). A ironia é que fizeram duas tentativas contra a vida de Saladino, que estava lutando contra os Cruzados Cristãos. (Foi sob a liderança de Saladino que os Muçulmanos finalmente capturaram a Palestina). Um motivo pode ter sido por Saladino ser um Curdo, e, portanto, um moderado.

A retaliação dos Mongóis

Durante 200 anos os Assassinos desencadearam o terror no Oriente Médio, que exigiu muito esforço e determinação por parte dos Mongóis para detê-los. Em 1256, um poderoso exército Mongol liderado pelo vingativo Hulagu Khan marchou através da Pérsia. Hulagu, que seguia uma religião que cultuava o céu, e prestes a abraçar o Budismo, estava determinado a impedir os atos de terror no seu império e em outros lugares.

De acordo com Edwin Black, autor de Banking on Baghdad, “Ele simplesmente recusou a se curvar ao Islã ou a qualquer sistema de crença que não fosse a sua. Hulagu sentiu que o Islã era uma afronta à monoteística crença Mongol, onde um Deus onipotente da natureza estava presente em todas as coisas.”.

Indiafact 4O exército de Hulagu era uma máquina militar incrível. Além de soldados, era composta de mil engenheiros Chineses. Um a um, Hulagu invadiu os 100 castelos supostamente impenetráveis dos Assassinos, matando implacavelmente os mestres, soldados, recrutas e até bebês em seus berços. O próprio Imã foi autorizado a implorar por misericórdia. Isso foi negado e as escoltas Mongóis do Imã, o chutaram sem piedade até a morte.

Tal como os Zelotes, que queriam libertar os Judeus, mas precipitou à destruição de Israel, a tentativa dos Assassinos de matar os líderes Mongóis levou o Islã a enfrentar sua mais grave ameaça desde a sua criação.

Os Mongóis marcharam para Bagdá e apontaram contra a cidade lendária, matando pelo menos um milhão de habitantes. Canais de irrigação e infraestrutura econômica foram destruídos de forma irreparável. As instituições políticas, como o califado, que manteve o mundo Muçulmano coeso durante séculos, foram abolidas.

A horda destruiu quase todas as grandes cidades Islâmicas, dizimando populações inteiras. Os Mongóis estavam aparentemente obcecados em destruir toda a Arábia, e poderiam realmente ter conseguido, quando, de repente Hulagu foi chamado de volta à Mongólia para assistir o funeral de seu tio.

A destruição Mongol de Bagdá foi um golpe psicológico , e desde então o Islã nunca mais se recuperou. Marcou o fim da Idade de Ouro Islâmica, durante o qual os Califados haviam estendido o seu domínio a partir da Espanha até a Índia Ocidental, marcado também por muitas realizações culturais e científicas.

Atos irracionais

Os Zelotes e os Assassinos criaram terror e instabilidade atacando os poderosos. Em contraste, os terroristas de hoje atacam o homem na rua porque os governantes estão bem protegidos. Fora isso, os objetivos dos terroristas do século XXI não são fundamentalmente diferentes. As histórias dos Zelotes e Assassinos mostram claramente que o terrorismo não é um desenvolvimento recente.

Invariavelmente, qualquer discussão sobre terror vira e volta para o terrorismo Islâmico. Terror Islâmico é uma grande preocupação para os governos, devido à sua propensão para dar as questões locais um sabor global ou pan-Islâmico. O inverso também é verdadeiro  os Muçulmanos em todo o mundo vão às ruas em protesto contra a intervenção Americana no Iraque e no Afeganistão, e as ações Israelenses na Palestina. Os tumultos Muçulmanos nas ruas de Sidnei, Austrália, são tão bizarros quanto.

Em contraste, os Hindus na Índia não saem por aí matando Budistas por causa da violência Budista contra Hindus em Sri Lanka. Ao contrário, os Hindus Indianos ajudaram os Lankas a eliminar os Tigres de Tamil, que foi o primeiro movimento de guerrilha no mundo a ter um esquadrão suicida. Mais uma vez, durante um período de 10 anos, a partir de meados de 1980, os terroristas Sikhs mataram sistematicamente milhares de Hindus comuns em toda Punjab e Deli, mas não houve um só ato de violência contra Sikhs durante esse período. O único caso de tumulto contra os Sikhs foi conduzido pelo Partido do Congresso, que é liderado por um Cristão Católico.

Essas ilustrações negam a noção  mundialmente aceita,  de que o terrorismo é uma consequência direta da injustiça social, econômica e política, frequente em todo o mundo, reproduzindo em escala global a luta de classe da ideologia Marxista.

Esse é o lugar onde os estúpidos Marxistas e esquerdistas estão como sempre  errados. Intervenções estrangeiras na África, América do Sul e Ásia não produziram Congoleses, Venezuelanos, Hindus, Coreanos ou terroristas Vietnamitas.

GAZA, GAZA STRIP - NOVEMBER 14: Izz ad-Din al-Qassam Brigades, the military wing of Hamas, hold a military parade on the 1st anniversary of Israel's attack on Gaza on 2012, November 14. (Photo by Mustafa Hassona/Anadolu Agency/Getty Images)
GAZA, GAZA STRIP – NOVEMBER 14: Izz ad-Din al-Qassam Brigades

Por outro lado, todos os países Muçulmanos que foram invadidos produziram jihadistas internacionais. Foram terroristas Afegãos, que aumentaram a aposta em Caxemira. Durante o início de 2000, um oficial sênior da célula especial da Polícia de Deli, que luta contra o terror, disse para este escritor que terroristas crescidos em Caxemira eram fáceis de lidar. “Não só era mais fácil combatê-los em confrontos armados, como um tapa era o suficiente para fazê-los chorar como meninas, se nós os capturássemos, “, disse ele. “No entanto, os Afegãos são diferentes. Lutam mesmo depois de perderem uma perna ou um braço. E foram dias de tortura antes deles racharem.

Licença para matar

Uma razão pela qual os Muçulmanos recorrem ao terror religioso é a crença de que é sancionado pela história, ou, pelo menos, por causa do precedente estabelecido. Veja o Império Otomano da Turquia, que desenvolveu o estado de terror a um novo nível. A incrível riqueza, fluindo a partir das províncias, permitiu ao sultão, manter centenas de concubinas além de suas quatro esposas. Quando um sultão morreu, seus muitos filhos rivais geraram guerras civis terríveis, as quais devido à violência, ameaçaram a própria existência do império. A solução: assassinato por atacado.

Edwin Black escreveu no Banking in Baghdad:

O fratricídio tornou-se uma tradição institucional Otomana, endossada por estudiosos Islâmicos do império. Em 1400, o Sultão Mehmed formalmente autorizou tais assassinatos em lei: “Para o bem-estar do Estado, um de meus filhos a quem Deus concede o sultanato, pode legalmente colocar seus irmãos a morte. A maioria dos ulemás (clérigos Corânicos) considera isso admissível.”.

Para os mullahs isso era uma questão de expediente  consentindo o assassinato em massa, tiravam o Sultão das suas costas. Em 1980, quando um jornal Indiano revisou os Versos Satânicos de Salman Rushdie, o clero Islâmico na Ásia do Sul e Irã prontamente passaram fatwas (sentença de morte) contra o escritor, sem sequer se preocupar em ler o livro. Para eles era uma forma conveniente de apaziguar os tumultos Muçulmanos nas cidades Europeias e Asiáticas.

Fechado para Reforma

Enquanto a Europa Cristã medieval teve suas Inquisições, caça às bruxas e queimas na fogueira,  e todas as formas de terrorismo de Estado , — reformas religiosas gradualmente levaram a uma clara separação do Estado e Igreja, conduzindo eventualmente a uma situação onde a religião deixou de ser um motivo de guerra na Europa. Além disso, o Tratado de Vestfália levou ao surgimento do Estado Nação.

Por outro lado, a reforma na Arábia usualmente significava balançar de um extremo ao outro. Em 1700 surgiram os Wahhabis, fanáticos religiosos que eram parte reformadora, parte assaltante Beduíno. Fundada por Mohammad ibn Abd al-Wahab, seus seguidores declararam que todas as formas de Islã organizadas após 950 d.C. eram blasfêmia. Isso incluía ambas as instituições Sunitas e Xiitas.

Proibindo o uso de tabaco e álcool, exigiam uma vida simples, desde um vestido sem traços característicos até o austero comportamento pessoal. Como os puritanos da Europa, que rejeitavam qualquer coisa que dava prazer às pessoas. Por exemplo, os santuários, mesquitas ornamentadas, minaretes elaborados e arcos que são uma característica da arquitetura Islâmica, não eram kosher (preparado de acordo com os preceitos religiosos Judaicos) em sua opinião. Mesquitas Wahabitas eram declarações austeras em pedra, ou lama.

É notável que, enquanto os Wahabitas ridicularizavam a gula e o estilo de vida luxuosa das majestades Muçulmanas contemporâneas, na Turquia e Arábia, nunca desistiram da violenta guerra civil que afetou as pessoas comuns e devastou o país. Massacres de Muçulmanos blasfemos eram comuns. Como exemplo, em 1801, um exército de Wahhabis atacou a cidade Mesopotâmica de Karbala. Mulheres Muçulmanas, crianças, jovens e velhos foram impiedosamente assassinados, depois que os combatentes foram liquidados.

Esqueça o fim, lute até o fim.

Os movimentos de guerrilha do século XX usaram o terror como tática de pressão para levar os governos à mesa de negociações. O militante Islâmico é diferente, e difícil, na medida em que não tem nada a negociar. A luta é até o fim.

Interceptações telefônicas via satélite, por agências de inteligência da Índia, durante os ataques terroristas de Mumbai em Novembro de 2008, mostraram essa faceta do terrorismo Islâmico. Os 10 terroristas que maninham reféns em dois hotéis e um centro Judaico, estavam em constante contato com seus treinadores no Paquistão. Os treinadores exigiam luta até o fim, pedindo-lhes para incendiar todos os lugares a fim de retardar os comandos. Quando um terrorista mortalmente ferido falou com o seu treinador sobre os ferimentos, foi instruído para começar a rezar porque a hora do paraíso havia chegado.

De certa forma, a roda deu uma volta completa, e estamos de volta aos dias dos Assassinos. Os Grandes Imãs do terror estão se escondendo em seus ninhos, desta vez protegidos por governos eleitos, arrecadando fundos, criando instituições de caridade para mascarar suas identidades, e treinando homens e mulheres jovens obcecados com, e hipnotizados pela, a ideia de jihad.

A própria abertura das democracias os torna altamente vulneráveis. O terrorismo prospera ao interromper a liberdade das sociedades livres, paradoxalmente aproveitando-se da livre circulação possível em tais lugares. Prova disso é a série de atentados terroristas na Rússia desde 1991, quando se tornou uma democracia, ao passo que nem mesmo uma mosca poderia atravessar as fronteiras da União Soviética antes disso. Da mesma forma, sob a ditadura Chinesa, os separatistas Muçulmanos Uigures acharam que era impossível atacar lugares como Xangai. Mas, a mão pesada de Pequim engarrafou os Uigures em sua província natal, Xinjiang.

Apesar do terrorismo poder paralisar, não conseguem dominar. Até agora, nenhum Estado se dobrou perante o terrorismo. Isso é um raio de esperança para as nações livres do mundo.

Rakesh Krishnan Simha

Rakesh Krishnan Simha é jornalista e sediado na Nova Zelândia. Escreve sobre assuntos estrangeiros e defesa para a Russia Beyond the Headlines, um projeto do grupo Rossiyskaya Gazeta Group de Moscou, o maior grupo de mídia da Rússia. É membro do conselho consultivo de Diplomacia Moderna baseada na Europa.


Tradução: Sebastian Cazeiro

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